quinta-feira, 11 de junho de 2009

Complexidade e Contradição em Arquitetura - Robert Venturi

O interior e o exterior

O exercício aqui desenvolvido de cunho acadêmico, tem por objetivo a comparação das noções e relações contidas no livro Complexidade e Contradição em Arquitetura de Robert Venturi com duas realidades distintas. O edifício The Menil Collection Museum do arquiteto italiano Renzo Piano e seu escritório RPBW, localizado em Houston no Texas - USA; e a Casa de Argemiro Hungria Machado do arquiteto brasileiro Lucio Costa e seu escritório, localizada no Rio de Janeijo - RJ, Brasil.
No capítulo nono do livro, denominado O interior e o exterior, Venturi trata das relações que existem entre os espaços citados em uma edificação.



"a necessidade de continuidade entre eles: o interior deve expressar-se no exterior”


Venturi inicia este capítulo citando uma das máximas da arquitetura do século XX: “a necessidade de continuidade entre eles: o interior deve expressar-se no exterior”. Para Robert Venturi naquela época se fazia certo tipo de arquitetura onde os ambientes internos e externos se confundiam, era possível observar um no outro o que causa ao espectador uma sensação de fluência através de planos verticais e horizontais (característicos deste tipo de fazer arquitetura) e de estar no mesmo lugar, onde sem surpresas ele pode deambular por dentro e por fora como se estivesse ainda no mesmo ambiente.
Ao visualizar as duas imagens do The Menil Collection, acima, não é possível observar está continuidade devido à diferença de ambientação do interior para o exterior do edifício. São percepções completamente diferentes.


Já na Casa Argemiro Hungria Machado de Lucio Costa, essa continuidade entre o interior e o exterior, é passível de observação. Ao andar pela varanda e adentrar um pouco mais, entra-se nas dependências da casa, mas não se percebe, pois, o ambiente é praticamente o mesmo, com a utilização de mesmos materias, como exemplo da planta, o piso; caracterizando assim o Moderno do projeto: o exterior ligado ao interior, por uma varanda inteiramente aberta ao pátio e uma grande porta com brise- soleil.

As janelas e a luz

As janelas que antes eram elementos marcados nas paredes com funções pré-definidas, agora se confundem com elementos de transição de um ambiente para o outro. Paredes que tenham passagens para outros ambientes podem ser entendidas como janelas para a entrada de luz e ventilação, mas sem serem previamente associadas pela mente humana como janelas propriamente ditas; neste momento, para o observador estes elementos não são janelas e passam desapercebidos pelos olhos humanos.


No The Menil Collection observa-se perfeitamente a relação das janelas vista acima. Neste, não é possível observar as tradicionais finestras e sim grandes vãos de vidro que acabam por exercer a função de janela, já que permite a passagem de luz e ventilação à medida que for necessário. Estas, não são percebidas pelos olhos humanos que ao mesmo passo não se sentem enclausurados, já que há incidência de luz e ar. A luz também penetra os ambientes de forma difusa através de brises soleil metálicos que compõem a cobertura do edifício.

Nas fotos acima, o detalhe da cobertura, que permite a entrada de luz

No projeto de Lucio Costa, estão presentes as janelas tipo guilhotina, além da abertura inferior, recoberta de vidro, que trás a mesma sensação do The Menil Collection. Ao olhar a fachada da casa, o observador apreende as janelas por sua função pré-definida. No caso da abertura, apesar de exercerem a função de janela, não são absorvidas como tal, como podemos observar na imagem abaixo.

Na casa Argemiro Hungria a luz penetra de forma direta através das aberturas (janelas e portas) inseridas nas fachadas.


"Um edifício é um ponto de abrigo”.

Segundo Kahn: “Um edifício é um ponto de abrigo”. Partindo deste pressuposto, Venturi discute-o baseado em exemplos diversos de edifícios pelo mundo. O Johnson Wax Building de Frank Lloyd Wright, por exemplo, se diferencia pelo fato de ter uma diferença clara do que seria o interior e o exterior do edifício fornecendo ao espectador um abrigo, privacidade.





















Apesar de seu caráter institucional, o edifício do The Menil Collection, oferece abrigo a diversas classes de pessoas. Na foto acima, é possível observar pessoas que se utilizam de suas coberturas para se abrigar do sol, ou ainda para fazer piqui-nique em seus gramados. Ou ainda, com abrigo para oficinas de uso geral, como pode-se observar na foto acima à direita.























Nas imagens acima referentes à Casa Argemiro Hungri Machado, pelas plantas baixas dos dois pavimentos e pela sua própria função de residência é possível observar a questão acima citada. Lá é possível observar que o ambiente proporciona abrigo, aconchego e privacidade aos moraadores da casa. As paredes, divisões e ambientes proporcionam uma maior pessoalidade ao ambiente.


Espaço em Espaço




Uma forma interessante de relacionar os espaços internos e externos encontrados no livro é a diferenciação feita por Elieel Saarinen que diz que tal como um edifício é a organização de espaço em espaço, assim é a comunidade, assim é a cidade. Venturi faz esta associação pensando em ambientes de um edifício que se compõem dentro de outros ambientes. Ele sita os baldaquinos colocados acima dos altares nas capelas mor ou até salas que se configuram dentro de casas.
Marcados em vermelho na foto acima o ambientes que compreendem ambientes dntros deles. Aí é possível observar que existem espaços dentro de lugares já definidos como espaços.




Forma x Planta


Outro aspecto importante a ser analisado no que tange a questão da relação interno x externo é o fato de que a forma externa de um edifício pode ser diferente da conformação da planta (é a relação forma x planta).





No edifício do The Menil Collection, sua forma da fachada exterior (vista acima) ao ser comparada com as formas de sua planta baixa (também acima) é passível de comparações. Ao observar a fachada pode-se pereceber que o edifício tem caráter ortogonal e é de grande amplitude. Quando passa-se para analisar a planta baixa esta teoria se confirma a partir do momento em que não se observar nem um tipo de contradição quanto ao aspecto físico da fachada. A planta continua ortogonal com divisões em paredes perpendiculares e tem seus ambientes amplos. Neste caso não há surpresas quanto ao interior do edifício.


















Também na casa acontece a mesma coisa. A fachada revela a forma da planta baixa interna, não havendo assim em nenhum dos dois casos a contradição citada por Venturi no livro.


Transição articulada


A transição deve ser articulada por meio de lugares definidos que induzem a percepção simultânea do que é significativo de um lado e do outro.

Nesta foto de uma das entradas do The Menil Collection observa-se que este é um típico espaço de transição definido para ser de tal onde tem apenas esta utilidade; induzir o observador a entender o que verá do outro lado.


Assinalado de vermelho na imagem acima, o espaço que julga-se ser de transição entre o exterior e o interior. Não se pode afirmar com precisão se este é ou não um espaço de transição porque não se tem fotos para saber se ele induz o observador a entender o que há do outro lado do ambiente.


Material interno x Material externo

Vários contrastes podem ser encontrados numa edificação quando comparados seu interior e seu exterior, como por exemplo contraste de forma, posição, padrão e tamanho, escala e material. No caso do material, a utilização de diferentes tipos interno e externamente pode expressar proteção, mistério no seu interior.



No The Menil Collection Museum, nota-se essa diferenciação de material. Externamente o edifício é todo revestido por placas de concreto aparente com textura áspera, dando à edificação um aspecto sólido de um edifício pesado, bruto. Porém, internamente as paredes polidas pintadas de branco, conferem amplitude e leveza.

Não foram encontradas fotos internas da Casa Argemiro Hungria Machado, por isso não há possibilidade de comparação.


Outros aspectos

Apósa leitura do capítudo 9 do livro Complexidade e Contradição em arquitetura de Robert Venturi, além dos aspectos citados acima, foram encontrados alguns outros aspectos que julgamos importante relatar, porém não estão inseridos no contexto dos dois edifícios analisados. São estes:
  • As paredes externas de uma edificação envolvem muitas vezes um complexo emaranhado de pequenos cômodos e salas que compõem o programa de tal edifício fazendo com que o todo se insira no contexto geral da escala da cidade.


  • Muitas vezes a relação não se exaure apenas entre os espaços internos e externos do edifício; mas vai além no que compreende a relação entre a base e o topo do edifício. Um exemplo disso é o prédio da P.S.F.S. que tem base curvilínea, colunas retangulares e topo anguloso.

  • A mistura de elementos de formas diferentes inseridos na fachada de um edifício configura-a como um elemento de transição entre os espaços interior e exterior.

  • O revestimento solto produz também uma contradição entre o espaço interior e o exterior. As camadas entre os espaços internos e externos podem ser mais ou menos contrastantes em forma, posição, padrão e tamanho. A diferença entre materiais aplicados no interior e no exterior de um edifício torna mais uma vez evidente essa contradição entre os espaços.

  • A sobreposição de elementos bidimensionais de tamanhos diferentes compõem uma visão tridimensional fazendo uma noção diferenciada da inserção de luz e de ventilação no ambiente.

  • As relações entre os espaços internos e os espaços residuais deixados pela configuração da diferença entre os revestimentos internos e externos do edifício. A grande quantidade de espaços residuais aproxima os espaços úteis do prédio. Esses espaços residuais terminam por permitir a criação de espaços dominantes abertos no edifício. A arquitetura deve ser concebida como uma transição de lugares intermediários claramente definidos.
  • Em alguns edifícios é possível observar a mudança dos tipos de abertura das janelas interna e externamente. Este fato se dá para a modificação da penetração da luz e da ventilação no ambiente.

  • “O projeto desenvolve-se de dentro para fora; o exterior é resultado do interior.” – Le Corbusier

  • O desenvolvimento de uma planta é influenciado, em distorções particulares, pelas forças de seu meio ambiente assim como por sua ordem genética de crescimento.
  • Arquitetura sem cantos

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